Senhoras da nossa idade

Um blogue quadrangulado entre Lisboa, Coimbra, Porto e S. Paulo

I am my street

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Na minha rua há uma casa antiga com uma tangerineira enorme colada ao muro, que estende os ramos para a estrada. A minha rua é uma ruela de piso esburacado. Embora na minha morada escreva o nome de uma avenida enorme, a entrada do prédio faz-se por um lado pouco visível e muito pouco cuidado.

A tangerineira lá vai cumprindo o calendário, infatigavelmente, e ora deixa cair frutas maduras para a estrada, ora liberta as folhas que precisam da renovação outonal. Infatigavelmente, a senhora dessa casa, que deverá ter o dobro da nossa idade, verifica o estado da estrada, junto ao seu muro, e recolhe tudo o que a sua árvore lá deposita. É uma imagem belíssima.

Folhas

Eu estou sempre a queixar-me da minha rua por causa do lixo que nela se acumula, mas nunca me lembro de ter tido um gesto no sentido de recolher fosse o que fosse do chão. “Não fui eu que sujei”, deve ser esse o argumento inconsciente. Ok. Mas já deixei cair muitas molas da roupa do muito alto 3º andar e limito-me a espreitar para ver se tenho que pedir desculpa a algum transeunte agredido. Quando vou ao ecoponto varro o chão das redondezas com o olhar e nada de molas da roupa, mas como mais ninguém varre nada por aqueles lados sem ser com o olhar, é um mistério como é que desaparecem.

A verdade é que toda a gente usa a expressão “a minha rua” sem sequer pensar naquilo que está a dizer. A verdade é que se eu desatasse a apanhar lixo da minha rua, molas da roupa ou fosse o que fosse, era provavelmente tratada como a maluquinha cá do sítio. Isto é uma das coisas que eu detesto na vida urbana: a orfandade do espaço público.

Então, para passar das palavras à acção, decidi que vou passar a recolher as molas da roupa que deixar cair da janela (e vou pelas escadas, aproveito e faço exercício!). Afinal, quero que “a minha rua” fique bem classificada no Ratemystreet. Acho que até vou divulgar esta ferramenta junto dos meus vizinhos, só no meu prédio são 40 apartamentos. E se eu conseguir realmente mudar alguma coisa?

Olha, Mariana, peço-te um favor: quando eu ficar famosa por ter conseguido fazer da minha rua a mais bem cuidada do mundo, lembra-me de atribuir os devidos créditos à senhora da casa da tangerineira… não vá eu ficar ofuscada pelas luzes da ribalta!

 

Autor: Marta

"Escrevo para pensar melhor."

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