Senhoras da nossa idade

Um blogue quadrangulado entre Lisboa, Coimbra, Porto e S. Paulo

SENHORAS DA NOSSA IDADE

1 Comentário

 

Pequenas velhices


«Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos; uns com outros acho que nem se misturam (…) Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data. Toda saudade é uma espécie de velhice. Talvez, então, a melhor coisa seria contar a infância não como um filme em que a vida acontece no tempo, uma coisa depois da outra, na ordem certa, sendo essa conexão que lhe dá sentido, meio e fim, mas como um álbum de retratos, cada um completo em si mesmo, cada um contendo o sentido inteiro.»

João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”

Xisco1

Querida Mariana,

hoje quero falar-te do primeiro ano de vida do Francisco, mas antes disso devo confessar-te que tenho alguma dificuldade em arrumar as coisas, as coisas da vida, linearmente. As minhas memórias são caleidoscópicas, a cada novo olhar rearrumam-se de forma diferente produzindo novas combinações e a cronologia nunca é decisiva. Trago sempre tudo comigo: o que foi e o que será. Não sei explicar isto de outra forma. Para mim, faz pouco sentido olhar para trás com melancolia, porque o que está para trás, temporalmente, não está perdido. Faz parte de mim.

Depois há também o que está para a frente. Também faz parte de mim. Não se trata de fatalismo, de determinismo. Trata-se da minha ideia de ser. Ser é tudo. Estar é agora. Eu sou tudo o que já vivi e o que ainda viverei. Estou criança, estou adulta, estou velha, de acordo com o calendário. Sou essas coisas todas juntas. Provavelmente esta perspetiva tomou forma a partir da tomada de consciência da velha que existe em mim.

Quando o Francisco nasceu, nos primeiros dias, nas primeiras semanas, nos primeiros meses, eu observava-o com uma curiosidade imensa, deslumbrada pela revelação de vida que desabrochava diante de mim. Não é que não me sinta, hoje, fascinada por ele como me sentia no início, mas hoje ele já é uma pessoa que me fascina. Quando nasceu, eu ainda não sabia bem o que ele era. Todo ele era fragilidade, vulnerabilidade, dependência. Fome, sono, desconforto. E conforto, saciedade, repouso. Uma criatura maravilhosa que encerrava, na sua simplicidade, todo um ciclo de vida.

Na fragilidade do Francisco eu vi a fragilidade das formas de vida que nos habituámos a considerar inferiores à nossa. Na vulnerabilidade do Francisco, na luta, durante os primeiros dias, contra a hostilidade do mundo extra-uterino, eu reconheci a vulnerabilidade de todos os seres vivos retirados do seu habitat. Na dependência do Francisco eu adivinhei a dependência dos doentes, dos velhos, dos acamados, dos portadores de deficiência. Na dualidade extrema fome/saciedade que o Francisco experienciava a cada três horas, eu entrevi a fome que não conhece saciedade.

Neste primeiro ano de vida, o Francisco ampliou a minha noção de ser. Ser não é apenas ser tudo aquilo que já fomos e seremos. É ser tudo o que pode ser sido. Somos todos pessoas, somos todos animais, somos todos velhos, somos todos novos, somos todos ágeis, somos todos imóveis, somos todos famintos, somos todos saciados, somos todos cansados, somos todos repousados, somos todos medrosos, somos todos confiantes, somos todos amados, somos todos abandonados, somos todos ignorantes, somos todos sábios, somos todos saudáveis, somos todos doentes. Somos todos vivos, somos todos mortais.

Depois de se ter um filho, de se olhar para um filho, de se ver um filho, depois de se compreender o que é um filho, já não há nada que não nos diga respeito.

 

🙂 Bem, o que dirás tu daqui a pouco tempo, depois de teres quatro filhos?

Beijos

Marta

Autor: Mariana

"What would you do if you knew you couldn't fail?"

One thought on “SENHORAS DA NOSSA IDADE

  1. Essa é uma das grandes diferenças que eu acho que acontece quando “nasce uma mãe”. É que as coisas deixam de ter impacto só em nós próprias mas também passam a ter impacto nos nossos filhos, e isso muda tudo, tudinho. Eu passei a reciclar, coisa que não me preocupava até agora (shame on me!) hehe

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