Senhoras da nossa idade

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Mal-de-mãe

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Mal-de-mãe

Queridas Senhoras,

“A noção de realidade é uma questão de talento. A maior parte das pessoas não possui esse talento e se calhar ainda bem.” – Charlotte Andergast, personagem interpretada por Ingrid Bergman no filme “Sonata de Outono” (1978), de Ingmar Bergman, a citar Leonardo, o seu amante recém-falecido.

A citação é usada por Charlotte como argumento de defesa face às acusações da sua filha Eva, interpretada por Liv Ullman; como uma espécie de invocação de inimputabilidade. O filme gira em torno do reencontro, após sete anos, de uma mãe e uma filha cuja relação, por debaixo de um verniz de cortesias, é um emaranhado de frustrações e mágoas. O verniz não demora muito a estalar. Um pesadelo, uma insónia, uma noite em branco e uma garrafa progressivamente esvaziada é quanto basta para que a palavra ódio encontre espaço para se legitimar como o despojo de uma infância.

O que me fez lembrar Doris Lessing. Numa entrevista sua ao Telegraph: «In Lessing’s case, you could never guess from her small but kind eyes that she hated her mother. ‘We hated each other,’ she clarifies. ‘We were quarrelling right from the start. She wouldn’t have chosen me as a daughter. I was landed on her. I must have driven her mad. She thought everything I did was to annoy her. She had an incredible capacity for self-delusion.’»

O que me fez lembrar Marguerite Duras. A figura da mãe é presença regular nos seus livros, aliás Duras atribuía parte da responsabilidade no seu despertar para a escrita à mãe enlouquecida pelas infrutíferas “barragens contra o Pacífico”, tal como refere, por exemplo, numa entrevista a Sinclair Dumontais: «C’est très certainement la peur de l’enfance que je raconte dans l’Amant, cette peur de mon grand frère et la folie de ma mère qui m’ont fait écrire. La pétrification des sentiments face à la peur ou la force de l’autre, découvrir sous le visage calme de la mère un torrent, un volcan, ou pire, une absence, une glace gelée qui ne bouge plus mais vous fait hurler, crier de peur. L’écriture fut la seule chose à la hauteur de cette catastrophe d’enfant.»

O que me fez lembrar Alice Vieira e a abertura do seu livro que mais me marcou, “Os Olhos de Ana Marta”: «Trocaram-me de mãe no hospital. Como nos filmes, sabes.» Já era adolescente quando o livro foi publicado, quase maior de idade, mas li-o de fio a pavio com um pasmo algo infantil. Comprei-o por causa do título, evidentemente. Alice Vieira havia sido uma das escritoras marcantes nos meus verdes anos e não podia ignorar o facto de estar ali o meu nome. Mas o pasmo vinha do que se escondia lá dentro.

Nestas deambulações em torno do tema das mães alienadas, tropecei, há uns anos, no documentário «Mére Fille pour la Vie», de Paule Zadjerman, que retrata a complexidade do relacionamento entre mãe e filha e que ilustra os conceitos teóricos com exemplos da literatura e do cinema, e com alguns testemunhos, entre os quais, precisamente, os das escritoras Doris Lessing e Marguerite Duras. Aquilo que, a mim, me tinha parecido uma associação pessoal, fruto de um conjunto de associações pessoais, revelou-se, afinal, um dado adquirido. Doris Lessing e Marguerite Duras? Ah, sim, as “crianças-catástrofe”.

O que eu não sabia, vim a saber muito mais tarde, era que Alice Vieira comungava dessa catástrofe que une Duras a Lessing, desse mal-de-mãe. «Eu acho hoje, e acho mesmo, que a minha mãe não tinha instinto maternal (…) Agora, criou-me muitos problemas, porque eu, até muito tarde, sentia muitos remorosos de não gostar da minha mãe como eu via as outras pessoas gostarem», revela Alice Vieira a Manuel Luís Goucha, em entrevista no canal TVI24. São poucas,  as mães, nos seus livros – e são sombras.

Continuo a lê-la mas agora já não apenas como leitora. Hoje leio-a como escritora. Tal como leio Duras e Lessing, os registos autobiográficos, sobretudo.

O triângulo está completo, há que escrevê-lo.

Beijos, minhas queridas, bom fim-de-semana

Marta

Autor: Marta

"Escrevo para pensar melhor."

7 thoughts on “Mal-de-mãe

  1. Querida Marta, o teu post tem um enorme manancial de informações, ligações, associações de um assunto que eu praticamente desconhecia e é muitíssimo interessante. Nunca dei conta dessa ausência da Mãe nos livros de Alice Vieira (ou nunca problematizei isso dessa maneira) e agora deste-me vontade de os reler (os Olhos de Ana Marta acho que nunca li por isso se calhar começo por aí).Muito obrigada por esta partilha tão rica em significados e descobertas.beijos grandes e uma boa semana

  2. Querida Céu, as informações, as ligações, as associações, são o meu mundo! Esta “teia” é-me particularmente cara, formou-se lentamente, ao longo de anos, e penso vir a trabalhá-la de alguma forma. As “crianças-catástrofe”, enfim, fascinam-me. Beijos!

  3. Bom dia! Encontrei Os Olhos de Ana Marta este fds em casa dos meus pais. Li-o de rajada ontem à noite🙂 É muito bom. E ainda me fartei de chorar🙂 obrigada por me levares a ler Alice Vieira de novo. Beijios!

  4. Bolas, nem me digas nada, Céu… Este livro sempre deu cabo de mim, fala-me diretamente às memórias mais antigas e mais difíceis… mas relê-lo depois de ser mãe… livra!🙂 Mas é mesmo muito bom. Beijos grandes!

  5. Fiquei a pensar neste texto.Curiosa esta relação mãe-filha.Só acontece no feminino ? já pensaram nisso ? Das três escritoras que falas,só conheço verdadeiramente a Duras e a figura da mãe é incontornável.Mas fiquei com vontade de ler a Alice Vieira.Estou a ler “Os Meus Sentimentos ” da Dulce Maria Cardoso e é trágico o relacionamento entre a mãe ,Violeta e filha,Dora.” recomeçamos,somos tão cansativas,porque não termino com isto tudo dizendo-lhe o quanto a amo,por que me afasto cada vez mais do pedaço mais perfeito de mim…bjs

  6. Uma escritora que está na minha lista de espera, Susana! Olha, nestes meus exemplos, aquilo que me atrai é o reflexo das infâncias destas escritoras nas suas obras. Mas, não, não creio que seja um mal exclusivamente feminino. Amor a mais, amor a menos, inépcia, negligência, totalitarismo, inveja, mágoa, violência… a lista é interminável e calha a todos os géneros. A criatividade humana é infinita no que toca a danificar as relações mais importantes. Como diz Tolstoi, na abertura do Anna Karenina, «As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira».

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