Senhoras da nossa idade

Um blogue quadrangulado entre Lisboa, Coimbra, Porto e S. Paulo

MEC vs. PM

3 comentários

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MEC vs. PM

 

Queridas Senhoras, que grande documento nos trouxe a imprensa deste fim-de-semana! Falo da entrevista de Pedro Mexia (PM) a Miguel Esteves Cardoso (MEC), na Revista do Expresso. Ainda não tive oportunidade de ler (é algo que quero saborear com calma, linha a linha) mas basicamente nem precisaria: entra directamente para o pódio das melhores peças publicadas nos últimos anos.

Escusado será dizer que tenho grande admiração pelos dois.

O que me ocorreu, e nunca tinha ocorrido antes, quando soube da entrevista, é que um talvez seja uma espécie de avesso do outro.

Já aqui falei da minha “febre” MEC, que aliás nasceu e frutificou no seio da família, nos anos d’ O Independente e muito para além disso. Durante vários anos, usávamos, em família, uma linguagem “Mequiana”, feita das suas expressões, da sua graça única, da forma certeira de apanhar tiques de linguagem, comportamentos, tipos sociais. Dizíamos “isso é como diz o MEC” a pretexto de mil e uma coisas. Porque, de facto, era como o MEC dizia. Com todos os seus adoráveis exageros e contradições, que nunca mas nunca, obscureciam a clareza límpida das palavras, a nitidez do discurso e da argumentação, e acima de tudo, o profundo amor e respeito à língua portuguesa.

As crónicas do PM vieram mais tarde, aí pelo fim da adolescência, e agarraram-me desde o início, até hoje. Assim como os textos, de tom mais intimista e diarístico, dos blogues Estado Civil e, depois, Lei Seca, o qual mantém actualmente. Encontro em PM idêntica clareza de linguagem e um discurso elegante, limpo, erudito, verdadeiro. 

Com as devidas distâncias, comparo os dois. Distâncias porque o MEC é o pai, o mentor, a referência de toda uma geração, com uma legião de admiradores, seguidores, discípulos, embora ainda sem sucessor (Ricardo Araújo Pereira domina totalmente a linguagem, tem a erudição e o estilo mas falta-lhe o lado humano, sentimental, por enquanto é tudo humor e isso não chega).

Comparo não as pessoas, é claro, mas as personas das crónicas, posts e textos.

E a tese é esta: acho que PM é o lado sombrio do MEC.

O MEC é hedonista até à medula. É capaz de escrever uma ode (uma? qual quê?, várias já eu li) ao peixe fresco, às hortaliças fresquinhas da praça e até, somente, ao nabo. De PM nunca li uma linha sobre comida. Não há restaurante ou tasco à beira mar que o faça sair do sério. PM é ascético e austero, sentimental mas distante. O MEC pega-nos pelo braço e vai connosco à praça. O PM acha que nada vale assim tanto entusiasmo.

Mesmo falando de assuntos tristes (como a recente doença da sua mulher), os textos do MEC têm esperança e futuro, são banhados por uma luz primaveril. PM, ainda que fale de momentos felizes, estes são sempre no passado, filtrados por uma luz outonal, que tudo envolve em nostalgia e melancolia.

É curioso que MEC, agora perto dos 60 anos, seja o eterno menino deslumbrado com a felicidade do primeiro banho de mar do ano.

MEC diz que uma pura e clara manhã de sol é uma benção. PM diz que não há nada de novo debaixo do sol.

Para mim os dois estão certos.

Esta escolha musical, sei que seria aprovada por ambos:

 

 

Beijinhos a todas,

Céu

Autor: Céu

Que vivas tempos interessantes!

3 thoughts on “MEC vs. PM

  1. Queridas Senhoras, não resisto a transcrever parte da crónica de ontem do MEC, sobre os primeiros espargos do ano. Infelizmente na net ainda não se encontra a versão integral. Mas termina assim: “Tão saborosos como espargos. No primor, como estes. Frescos – como o futuro.!”OXALÁ”Anteontem comemos os primeiros espargos do ano. Ou, melhor, os segundos porque os primeiros foram comidos por uns finaços de uns coelhos, que depois andaram para aí a fazer xixis de fazer fugir os escaravelhos. Tanto tenho perguntado ao cultivador quando é que ia haver espargos que ele, com espantosa generosidade, foi ter connosco ao restaurante onde estávamos e ofereceu-nos dois molhos grandes, acabados de aparecer e apanhar: a quinta dele é quase ali ao pé. Ou então foi em desespero, só para nos calar. Funcionou. Mandámos suspender o peixe que estava a cozer — uma coisa que nunca se faz — e ajoelhámo-nos diante dos cozinheiros, pedindo que nos arranjassem e cozessem os espargos. Às vezes parece que ninguém tem mais sorte do que nós. E uma vez ou outra tem-se a certeza. Como anteontem. ” MEC

  2. Pingback: Nem que eu leve a América até ti « Senhoras da nossa idade

  3. Ontem li, algures no facebook, uma crónica do MEC em que ele despeja o coração. A mulher dele está muito doente. Fiquei tão incomodada que até tive pesadelos. Porque penso neles assim, felizes, a comer espargos acabados de colher e a ler poemas do Leonard Cohen um ao outro, e entristece-me muito o sofrimento por que passam agora. Queira o destino que tudo corra bem e que possam viver muitos mais 20 anos juntos.

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