Senhoras da nossa idade

Um blogue quadrangulado entre Lisboa, Coimbra, Porto e S. Paulo

Quid pro quo, cara Senhora

3 comentários

William Turner, ‘Fishermen at Sea’

Querida Céu (e restantes Senhoras, evidentemente),

estava a preparar-me para comentar o teu último post quando percebi que, mais uma vez, a caixa de comentários não era suficiente para tudo aquilo que te quero dizer. O que é magnífico, pois é mesmo para isso que nos juntamos aqui, as quatro: para falarmos umas com as outras.

Descreves o Hotel Majestic exactamente com o tom que eu procurei, mas não encontrei, quando o escolhi para inaugurar a nossa troca de livros. O que é, mais uma vez, magnífico – ou, para não repetir o adjectivo, entusiasmante. Deveras entusiasmante! Eu sabia que esta seria uma parte muito importante da nossa ‘corrente de leituras’.

O ambiente em que se desenrola o livro de J. G. Farrell evoca o ‘meu’ ambiente. O mar agreste, as povoações piscatórias, a neblina. E os faróis. E as casas velhas, decadentes, a vergar sob o peso das histórias que queriam poder contar. As ilhas, as rodeadas de água por todos os lados mas também as que se empoleiram à beira-mar, ou à beira de nenhures, encurraladas por amores, más-sortes, acasos acomodados, assuntos inacabados, memórias ancoradouras. Desde O Velho e o Mar à senhora dos Açores; desde os quadros de Turner aos romances claustrofóbicos de Ana Teresa Pereira; desde O Piano a Shipping News; desde Northern Exposure à Loucura na Cornualha; desde a Crazy Mary de Victoria Williams (na voz de Eddie Vedder) à Suzanne de Leonard Cohen.

O major que chega ao Majestic para casar com uma mulher pela qual não se lembra de se ter apaixonado é dado a reflexões que nos estão sempre a lembrar da suprema ironia de todas as coisas:

«”O que acontece a estas pessoas? Nunca chegarão a velhas, com toda a certeza. Um dia, desaparecem subitamente. Transformam-se por magia em qualquer coisa diferente, absolutamente diferente. De tal modo que num momento existe uma rapariga amorosa e, no seguinte, uma outra criatura, tão diferente dela como uma rã do girino que fora anteriormente. O que nos acontecerá a todos?”, cismou (incluindo ele próprio, porque, afinal, sabia que também era muito bem-parecido.) E esta pergunta sem resposta deixou-o num estado de melancolia que apreciou bastante – porque, obviamente, era um problema que não tinha de encarar de imediato. (Um dia desapareceremos. Mas, de momento, somos tão amorosos!)»

Bem, mas sobre o livro que eu te emprestei já tu disseste tudo. Agora, chegou a minha vez de falar sobre o primeiro livro que tu me emprestaste (já estou a ler o segundo).

Soube da existência deste fenómeno por ti, Céu, por uma referência tua no facebook (‘é tão bom que irrita’). Agora que o li, percebo-te perfeitamente.

Terá sido Hemingway que disse que o livro mais fácil de ler é o mais difícil de escrever? Bem, faria sentido que tivesse sido. Este livro é um exemplo perfeito disso mesmo. Podemos lê-lo de uma penada e ficar com a sensação de que poderá ter sido escrito com a mesma fluidez. Mas depois de atentarmos na forma como as frases encaixam umas nas outras, como as peças do puzzle se vão juntando, como os personagens são densos e os diálogos verosímeis, percebemos que Tom Rachman é um perfeccionista. O livro é ‘irritantemente’ bem escrito e bem construído.

Terá sido por isso que me faltou uma ligação emocional com a história? Talvez. Tocou-me particularmente a personagem de Arthur Gopal, o obituarista. Para mim, perfeito seria que esse capítulo apenas fosse o esqueleto de um romance. Apetecia-me aprofundar a relação de Arthur com a filha, o drama familiar, a história da moribunda Gerda e aquele volte-face brilhantemente orquestrado que acaba a colocar Arthur num novo cargo, num novo gabinete, próximo do dispensador de água.

E não posso ser indiferente ao pano de fundo da obra, a crise do jornalismo. Como recente ex-jornalista, vivo estas coisas na primeira pessoa. Até porque eu ainda sou do tempo das máquinas de escrever e da paginação com cola e tesoura. Vivi a transformação – só ainda não sei em que é que nos transformámos…

Beijinhos grandes, senhoras, e boas leituras!

PS: Alguém quer o Majestic agora? Peça à Céu. E tu, Céu, preparada para mais um?

Autor: Marta

"Escrevo para pensar melhor."

3 thoughts on “Quid pro quo, cara Senhora

  1. Quero receber outro sim! Arranjas-me outro grande e bom para as férias, um peso-pesado como o Majestic?🙂

  2. Pingback: Contra ventos « Senhoras da nossa idade

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